sábado, 13 de julho de 2013
O templo daqui.
Quanto mais eu vejo e visito templos, igrejas, mesquitas e lugares considerados santos, mais eu me convenço de que o verdadeiro templo divino está dentro do meu coração. E é lá dentro, que quietinho e de olhos fechados, consigo ver o brilho real "da luz que brilha mais do que milhões de sois juntos". E essa luz transborda. E o choro é inevitável. E a noite no quarto escuro de um hotel num canto do mundo vira dia. E fica mais claro o que eu leio, o que estudo, o que aprendo, o que pratico e o que amo. Engraçado como tive que vir tão longe pra entender melhor algo que está tão perto. Talvez seja esse mesmo o xis da questão. Ou como o Cara lá em cima brinca com nossa ilusão. Meu peito vai explodir de tanto amor, Cristo. Ou é tanto amor do Cristo que faz explodir o meu coração?
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Ferramenta.
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Em poucos
momentos da minha vida estive realmente presente. Presente de verdade. Com a
cabeça, os sentidos, o coração, a atenção toda ali no momento. Dificílimo.
Mantras, práticas disso, daquilo, meditação, muita meditação e surfe. Pois é,
surfe. Quando se está lá no fundo em cima da prancha, sua atenção fica completamente
lá. Não sei se é porque a gente se coloca numa posição de espera, até de uma
certa tensão misturada com ansiedade, sei lá. Mas é presente, é só ali. Olhando
o horizonte, e esperando. Acho que deve até rolar a tal da “harmonia com a
natureza” que tanto se fala. Será? Até porque é você ali, e ela. E a
grandiosidade dela. Talvez essa grandiosidade e estar de frente com ela, cara a
cara com o horizonte do mar, faça com que agente se sinta pequeno mesmo. Aí o silêncio é inevitável. Mas não o silêncio de fora, o de dentro.
Você se aquieta, observa, se acalma e espera. O que ela vai te mandar. E o mais
engraçado é que tem a sua onda. Pronta, perfeita, com o seu nome escrito nela. E é aí que entra a mágica do negócio. Você não precisa “correr atrás”
pra conseguir. Não precisa competir. Não precisa ficar ansioso pensando, será
que vem? Será que não vem? É só esperar. Talvez eu tenha descoberto no surfe a
espiritualidade que tanto pratico. O estar presente. A entrega. Talvez eu tenha
crescido com a ideia de que a gente tem que isso e tem que aquilo pra conseguir
as coisas... E quer saber? Tem que nada. Ideia de jerico, isso aí. Tá tudo
programado. Explico porque:
Depois de
algumas horas surfando, (e do meu ombro “apitando”) pego a última onda e vou
pra areia. Satisfação geral. Corpo, mente e espírito. Esse último meio
satisfeito. A outra metade veio em seguida. Fico na areia, sentindo o sol e curtindo
ainda aquela sensação da presença rolando.
Me sento e fico observando meu amigo ainda no mar esperando a última
onda dele, a “saideira”. Olho para os lados e a praia está deserta. Com exceção
de um casal a uns 50 metros a minha esquerda que vai andando em direção ao mar.
Volto a olhar para o mar e fico lá adivinhando qual vai vir com o nome dele. Ó
lá, é ela. Lindona. Ele pega e começa a vir para areia. Nesse instante escuto
alguém gritando atrás de mim e vejo um homem de branco gesticulando desesperadamente
e apontando para o mar. Olho procurando o casal a minha direita e vejo que eles
não estão mais ali no raso, mas lá no meio da arrebentação e pior, se afogando! Meu
amigo a essa altura já esta com a prancha na mão andando em minha direção
quando saio correndo em direção ao casal gritando para ele: Traz a prancha!!
Imediatamente ele percebe o que esta acontecendo e corre comigo em direção ao
casal. Nesse momento fico tentando lembrar dos cursinhos rápidos de primeiros
socorros que ensinavam na escola ou de algum documentário da Discovery Channel. Aí me lembro de que a pessoa se afogando,
pode acabar afogando quem está tentando salva-la. Vou pega-la por trás, pensei.
Chego bem perto e bato em um dos braços dela virando-a de costas para mim. Consigo agarra-la e começo
a nadar em direção a areia. Só nessa hora percebo o meu amigo pegando o marido dela
que estava mais ao fundo. Beleza. Ela estava muito mole, já não aguentava
respirar direito. Eu apenas dizia: respire, respire, calma, está acabando. Com
uma dificuldade tremenda consigo traze-la até a areia. Estávamos no meio da arrebentação
com o mar mexido, buracos na areia e uma correnteza bem forte. A mulher parecia
não ter musculatura nenhuma, era como se fosse uma gelatina. Acho que de tão
exausta que estava. E nem falava direito, apenas respirava ofegante. Só na
areia ela soltou um “thank you” aí percebi a nacionalidade. O caseiro chegou
agradecendo a Deus por estarmos ali, ele não sabia nadar. E eu pagradecendo
a Deus pelo meu amigo ter saido da água exatamente naquela hora. Eu não conseguiria
pegar os dois.
Foi aí que
tudo se encaixou na minha cabeça: eu saindo da água, o casal andando em direção
ao mar, meu amigo pegando a última onda, o caseiro gritando, o casal no meio da
arrebentação e o meu amigo já na areia. Uma sincronicidade incrível. Meu Deus
do céu! Me lembrei do outro jeito que Ele é chamado por aí, “O Grande Arquiteto
do Universo”. Imagina o tamanho que fiquei perto disso tudo. O grão de areia era um gigante.
Já havia escutado, lido, estudado sobre tudo estar sincronizado, que nada é por
acaso e tal, mas nunca havia presenciado a parada. Ou prestado atenção nela. Talvez
porque naquela hora eu estivesse presente e pude perceber a grandiosidade da
vida acontecendo? É bem provável. Quem dera ficar a maior parte do dia nesse
estado. Talvez as coisas ficassem mais claras. Mais fáceis. Mais compreensíveis
e a gente menos doente e menos distante Dele.
Depois de
tudo aquilo, viro para o meu amigo e digo: Hoje não viemos até aqui pra surfar.
Viemos salvar aquele casal, cara. Ele concordou com a cabeça.
E todos os
dias eu penso: aquele dia não fomos até lá surfar, fomos apenas ferramentas do
Grande Arquiteto do Universo. E agradeço.
sábado, 23 de junho de 2012
Teu olho que brilha e não para.
Engraçado como os presentes mais fascinantes estão bem lá no fundo do lamaçal de nos mesmos. E quando descido entrar de cabeça nele, dou de cara com as coisas mais lindas e fascinantes da vida. E é aí que entendo que a pérola fica envolvida por uma casca dura, grossa, difícil de penetrar. Estou no momento mais espiritual da minha, talvez seja porque encontrei a espiritualidade na vida, junto com a vida. Algo do tipo: estar aqui e agora, mas respirando e percebendo os dois planos. Mas não existindo dois, e sim um que é os dois. Não sei explicar. Mas é intenso, uma mistura de júbilo e dor. O prazer da dor. Mas não um prazer físico, mas espiritual. Como se a minha alma estivesse se mexendo e batendo a sujeira dela mesma, como se tirasse o pó. E cada batida que ela dá, uma casca, uma vida passada, um trauma, um sei lá o que aparece diante dos meus olhos. E eu observo surpreso. Sem nunca saber que aquilo estava ali, mas estava, e foi embora. E debaixo do pó minha alma brilha um pouco mais. E sem ter muito tempo de entender aquilo, vem a outra batida de pó, e mais algo aparece. Uma atrás da outra. Intenso, sem tempo, uma atrás da outra. É como se os pós fossem frações de vidas, vivências, ocorrências registradas na âmago de mim mesmo. De um eu que nem eu mesmo sei direito. De muito tempo. Junto vejo pessoas, entidades obsessoras agindo em coisas que nem eu mesmo sabia, amparadores antigos que não me lembrava mais e em formas que nem imaginava que existiam. E hoje ganhei mais um desses presentes. Porque seja como for, eu sei e sinto a presença de amigos espirituais muito próximos de mim, que seguram a minha mão enquanto doi. De vários lugares, de várias linhas, descubro almas amigas que nem pensava que conhecia. Mas hoje eu conhecia, e bem. E chorei de saudade. Pela primeira vez chorei de saudade dela. Uma saudade humana, mas que logo vira uma saudade mais consistente. Que o amor humano já percebi que é muito menor em relação ao tempo que vivemos, as vezes, com certas pessoas. E mais uma vez seus olhos azuis brilharam para mim. Ai, vozinha querida, que saudade! Que gratidão poder sentir o seu amor materno e espiritual tão perto de mim, assim. Hoje, você me ajudou a abraçar um espírito que a tempos quis me prejudicar. Me mostrando que o amor é maior que tudo isso. E que ele agia por amor. E que as vezes a gente faz besteira por amor, também. Mostrou que ele não perdeu. Mas que o amor ganhou. Eu, ele e todo mundo ganhou. Hoje eu chorei sua partida Vandinha. E junto com esse choro, o choro de gratidão pelo seu amparo e por você, na verdade nunca ter ido. Nunca.
E hoje eu vou fazer diferente, vó. Vou rezar por você cantando assim:
“Teu olho que brilha e não para. Vandinha, te encontro na fé.
Salva salve essa nega, que axé ela tem.
Ó meu Pai do céu, limpe tudo aí.
Vai chegar a rainha precisando dormir.
Quando ela chegar Tu me faça um favor,
Dê um banto a ela, que ela me benze aonde eu for.”
Hoje eu entendo que o “fardo pesado que levas, deságua na força que tens.”
“Teu lar é no reino divino, limpinho cheirando alecrim.”
PS: Isso vale pra você também, viu, madrinha querida. Que fica aí do lado só rindo. E não ri, não, que vou continuar te pentelhando com perguntas o tempo todo, viu...rs.
Clique nesse link e feche os olhos e lembre dela (s). Bejos - http://www.youtube.com/watch?v=sID-p2pt7zs
“Teu olho que brilha e não para. Vandinha, te encontro na fé.
Salva salve essa nega, que axé ela tem.
Ó meu Pai do céu, limpe tudo aí.
Vai chegar a rainha precisando dormir.
Quando ela chegar Tu me faça um favor,
Dê um banto a ela, que ela me benze aonde eu for.”
Hoje eu entendo que o “fardo pesado que levas, deságua na força que tens.”
“Teu lar é no reino divino, limpinho cheirando alecrim.”
PS: Isso vale pra você também, viu, madrinha querida. Que fica aí do lado só rindo. E não ri, não, que vou continuar te pentelhando com perguntas o tempo todo, viu...rs.
Clique nesse link e feche os olhos e lembre dela (s). Bejos - http://www.youtube.com/watch?v=sID-p2pt7zs
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O que você tem?
O que você tem? Qual seu patrimônio? Você já tem 30 anos e ainda não tem nada? Putz, e aí? Não vai fazer um pé de meia? Precisa heim! Afinal de contas o tempo passa, o tempo voa. Aí você se pega ansioso correndo atrás do pé de meia. Com medo do futuro. Do que vai ser da sua velhice. O que vai deixar para seus filhos. Todo mundo se preocupa com isso. Todo mundo. Eu também. Mas aí olho em volta e vejo um monte de gente correndo atrás do rabo, digo, pé de meia. Eu também, mas digamos que com uma diferença. Ao invés de correr eu ando. E quer sabe? Ando na boa. Tipo boêmio andando na calçada de Copacabana olhando o mar. Apreciando a paisagem. E enquanto olho, veja uma galera correndo pra cima e pra baixo com seus patrimônios blindados. Com suas fisionomias rançosas e os olhos focados no próprio umbigo. Aí sinto uma tristeza no peito. Não pelo que não tenho. Mas pelo que eles não tem. Aí fecho os meus olhos e visualizo o meu corpo envelhecendo até o momento da morte em uma fração de segundos. Como aqueles vídeos superacelerados da National Geographic. Até apodrecer e virar pó. Aí me vejo como alma, como espírito. E ali, faço a mesma pergunta: o que você tem? Nessa momento sinto minha testa brilhando. Percebo uma pedra preciosa ali dentro. Com uma luz de um brilho inimaginável. Na mesma hora, lembro dos amparadores e sinto meu peito também brilhando. Mais diamante se acende ali. Um contentamento ainda maior toma conta de mim. E minhas mãos se acendem também como tochas de fogo. Olha para elas e vejo mais duas esferas brilhantes, como dois diamantes lapidados. E então lembro daquela pessoa dentro do carro, com seu olhar preocupado e expressas rançosa. E então eu a abraço e ofereço tudo o tenho. Absolutamente tudo. Abro meus olhos. Continuo andando, apreciando a paisagem com uma sensação maravilhosa dentro do peito. Mas continuo sem nada. Aí me lembro da pergunta e junto com ela me vem logo a resposta: você tem tudo.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
No oceano de mim mesmo.
Tem momentos na vida da gente que parece o Saara. Você olha para todos os lados e nada. Não tem amigos, não tem parentes, não tem miragem. E são nesses momentos que a gente descobre mais sobre a gente. Sobre a nossa força interior. É quando quebra alguns condicionamentos. É bom quebrar condicionamentos. Daquilo que se faz, que se estuda que se dispõe a ir fundo. E é nessa hora que a gente para de bater os braços e coloca o pé para baixo para ver qual é a profundidade que chegamos que a gente descobre que não dá pé. E dá medo. E entre o pânico e a sanidade, a gente vê o quanto procuramos algo para apoiar. Um amigo, uma técnica, um mestre, um deus. Mas vê que não tem nada lá. Só a gente e a imensidão. Mas precisa se manter firme, mesmo com o coração na boca, pegar fôlego para continuar remando em busca do que ama. Do que acredita. De uma nova direção. E mudar incomoda. Não só quem muda, mas quem está acostumado com o nosso automatismo, também. Dói os braços. Mas faz bem. Diminui a gente. Engrandece o aprendizado. Cria musculatura. Coloca nossas certezas à prova. E é aí que a alma da gente vira do avesso. Oras, “alguns de nós escolhem viver graciosamente. Alguns podem ficar presos no labirinto e perder o caminho de casa. Esta é a vida a que pertencemos. Nosso divino dom”. Prefiro viver graciosamente, mesmo que as vezes tenha que me perder dentro do labirinto de mim mesmo. Porque no final das contas, vou encontrar o caminho de casa, de um jeito ou de outro. E quando parar de bater os braços e colocar os pés no chão para ver se vai dar pé, não precisar mais procurar algo para apoiar. Porque vou ter a certeza de que vai ter um Cara lá para segurar a minha mão. E então, não vou precisar mais me manter firme, nem pegar mais fôlego, nem bater mais os meus braços. Nunca mais.
sábado, 30 de julho de 2011
Tréquinho.
Você tem tudo. Tem uma boa saúde. Uma boa família. Uma boa casa. Um bom carro. Um bom marido. Mas tem algo que não está bom. “Não sei o que é. Algo que me incomoda, que, sei lá”. Então, você vai e compra roupas novas. Compra um carro novo. Uma casa nova. E tem até quem arruma um marido novo. Fica tudo melhor. Mas o tréquinho lá dentro de você continua incomodando. Que nem um inseto que fica rodeando a orelha da gente, sabe? E a gente tenta espantar com as mãos e ele torna a voltar. Então, lá vai você de novo. Compra roupas novas, pega um carro melhor, uma casa maior, ou uma na praia talvez. Tem mais um filho. E vai acumulando tranqueiras envolta de você. Acumulando coisas para tentar diminuir o ruído desse tréquinho aí dentro que não para de encher. Mais do mesmo, sempre mais do mesmo. E nunca está feliz. Se está é por um tempo. Um ano, dois, trinta anos talvez, mas dura pouco. O engraçado é que ninguém para pra prestar atenção nesse tréquinho que incomoda. Ninguém para um minutinho sequer para olhar para isso. Pra ver o que é, do que se trata, como chama ou o que significa esse tréquinho aí dentro. É mais fácil jogar coisas em cima dele para abafar o ruído. Bem mais fácil.
Mas tem gente que se enche dele e para pra prestar atenção. Sabe aquele negócio: “Se não pode vencê-los junte-se a eles”? Então. Aí ela vai lá, entre um relacionamento e outro, um carro maior e outro, entre os mais do mesmo, e para. E escuta...
... e se assusta. Porque... “Cadê o tréquinho que tava aqui? Disgramado!!! Ficou a vida inteira me atazanando e quando eu finalmente resolvo parar para escutá-lo ele some!!!”
Opa, mas peraí, também tem outra coisa aqui. Tem um frescor. Um silêncio gostoso. Que bom é isso. Nossa, quanto tempo eu não para. Não fico quietinho aqui comigo!
E aí percebe o quanto de coisas vem acumulando em volta de você. Quanto coisa inútil vem acumulando dentro de você. Coisas que não tem nada a ver com você. Podia até ter a ver com aquilo que você achava que era você. Mas não com esse você aí, de verdade.
Percebe que aquele trequinho que incomodava tanto era uma parte sua dizendo assim: “Hei, olha pra você, cara. Olha para o que você está fazendo com você. Você ainda se lembra de como você era? Lembra dos seus valores? Do que você acreditava? Quais eram seus sonhos quando era moleque? Ta aí na vida jogado. Correndo. Se anulando. Vivendo a vida de outras pessoas. Do pai, do marido, do filho, do chefe. Se liga, meu chapa.
Mas é raro quem dê ouvidos a si mesmo. Vai levando a vida, no sopetão. Fazendo. Correndo. Acumulando. Se anulando e vivendo a vida de outras pessoas. Para, no final das contas, olhar em volta e perceber que está cheio de tudo e vazio de si mesmo.
Mas tem gente que se enche dele e para pra prestar atenção. Sabe aquele negócio: “Se não pode vencê-los junte-se a eles”? Então. Aí ela vai lá, entre um relacionamento e outro, um carro maior e outro, entre os mais do mesmo, e para. E escuta...
... e se assusta. Porque... “Cadê o tréquinho que tava aqui? Disgramado!!! Ficou a vida inteira me atazanando e quando eu finalmente resolvo parar para escutá-lo ele some!!!”
Opa, mas peraí, também tem outra coisa aqui. Tem um frescor. Um silêncio gostoso. Que bom é isso. Nossa, quanto tempo eu não para. Não fico quietinho aqui comigo!
E aí percebe o quanto de coisas vem acumulando em volta de você. Quanto coisa inútil vem acumulando dentro de você. Coisas que não tem nada a ver com você. Podia até ter a ver com aquilo que você achava que era você. Mas não com esse você aí, de verdade.
Percebe que aquele trequinho que incomodava tanto era uma parte sua dizendo assim: “Hei, olha pra você, cara. Olha para o que você está fazendo com você. Você ainda se lembra de como você era? Lembra dos seus valores? Do que você acreditava? Quais eram seus sonhos quando era moleque? Ta aí na vida jogado. Correndo. Se anulando. Vivendo a vida de outras pessoas. Do pai, do marido, do filho, do chefe. Se liga, meu chapa.
Mas é raro quem dê ouvidos a si mesmo. Vai levando a vida, no sopetão. Fazendo. Correndo. Acumulando. Se anulando e vivendo a vida de outras pessoas. Para, no final das contas, olhar em volta e perceber que está cheio de tudo e vazio de si mesmo.
terça-feira, 1 de março de 2011
Tudo certo. E aí?
Depois de fadigar o meu corpo por quase uma hora, me sento em padmasana embaixo de uma árvore. Isso me ajuda a entrar mais rápido num estado meditativo. Fica mais profundo. Com os olhos fechados escuto as crianças brincando no parquinho ao fundo. Percebo pessoas passando atrás de mim. Cachorros, bicicletas, vozes. Vou interiorizando. A percepção das pessoas vai diminuindo. Aumenta a percepção do meu corpo. Do batimento cardíaco. Uma formiga anda sobre o meu corpo. Aproveito para voltar ainda mais a atenção para ele. Vou para dentro. Fundo. Cada vez mais fundo. Meus pensamentos agora fazem tanto barulho quanto lá fora. Muito barulho. Não dou bola. Fico apenas observando. Em alguns percebo me envolvendo emocionalmente. Mas vou me distânciando mais e mais. Quase nenhum pensamento. Apenas eu, meu corpo e minha respiração. Delícia. Impossível descrever a sensação. Mas é como se você entrasse num estado em que ficasse olhando para você mesmo, completamente dentro de você, consciênte de você. Livre de qualquer ansiedade, cobrança, preocupação com futuro, reponsabilidade ou qualquer coisa. Apenas ali, no que chamam de presente. Exceto por uma frase. Apenas uma insistente frase. Que permaneceu: Por que não dá certo? Por que não dá certo? E se repetia dentro da minha mente. Mas nesse momento eu já estava apenas como um telespectador olhando praquilo. Apenas olhando. E a palavra lá. Fiquei assim. Olhando. Sem sequer uma ansiedade ou possibilidade de resposta. Como se eu fosse um analfabeto olhando uma frase na lousa. Não sei quanto tempo se passou. Mas num instante a frase mudou para: Já deu certo. Nesse momento tive uma expansão da consciência e foi como se eu deslizasse para dentro de mim mesmo, dentro do meu sistema fisiológico. Como se eu pudesse ver claramente a complexidade dos orgãos, das glândulas, dos ossos, músculos, veias, sangue, e foi afunilando mais e mais. Vi os glóbulos no sangue, as células, as trocas celulares. Tudo impressionantemente rápido e claro, com uma lucidez incrível. E sem racionalizar a experiência, ou seja, ainda totalmente como telespectador. A resposta se fez exata, não na minha mente, mas no meu ser: Já deu certo. E como se não bastasse, mas para mim já havia bastado, da visão micro do organismo, fui para o oposto numa velocidade tão rápida quanto a primeira. Vi meu corpo sentado embaixo da árvore e fui subindo, vi o planeta onde esse corpo estava. Daí para outros planos que não ouso mencionar, fui para o momento da minha escolha, da decisão, do meu processo reencarnatório. Com um estouro de lucidez de tudo o que se passou para eu estar aqui, agora, nesse corpo, desse jeito, nesse lugar, com essas características, cores, pessoas, tudo, absolutamente tudo, per-fei-ta-men-te cer-to. E isso era tão claro para mim como respirar. Foi como se me mostrassem tudo. Como funciona e como funcionou.
Sinto meu peito se enchendo de ar como se eu estivesse respirando só aquela hora. Escuto as crianças brincando ao fundo, passos de pessoas, cachorros, bicicletas, sinto a formiga andando sobre minha perna agora. Obro meus olhos. Me impressiono pela coloração. Faz tempo que não vejo o mundo com esses olhos. Me espreguiço. Espero a circulação das minhas pernas voltarem. Me levanto com dificuldade. Ainda sem muita noção de tempo. Nem olho no relógio. Pego minha bicicleta e vou embora. A palavra? Sumiu. A resposta? Não preciso mais dela. Já deu tudo certo.
Sinto meu peito se enchendo de ar como se eu estivesse respirando só aquela hora. Escuto as crianças brincando ao fundo, passos de pessoas, cachorros, bicicletas, sinto a formiga andando sobre minha perna agora. Obro meus olhos. Me impressiono pela coloração. Faz tempo que não vejo o mundo com esses olhos. Me espreguiço. Espero a circulação das minhas pernas voltarem. Me levanto com dificuldade. Ainda sem muita noção de tempo. Nem olho no relógio. Pego minha bicicleta e vou embora. A palavra? Sumiu. A resposta? Não preciso mais dela. Já deu tudo certo.
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