terça-feira, 1 de março de 2011

Tudo certo. E aí?

Depois de fadigar o meu corpo por quase uma hora, me sento em padmasana embaixo de uma árvore. Isso me ajuda a entrar mais rápido num estado meditativo. Fica mais profundo. Com os olhos fechados escuto as crianças brincando no parquinho ao fundo. Percebo pessoas passando atrás de mim. Cachorros, bicicletas, vozes. Vou interiorizando. A percepção das pessoas vai diminuindo. Aumenta a percepção do meu corpo. Do batimento cardíaco. Uma formiga anda sobre o meu corpo. Aproveito para voltar ainda mais a atenção para ele. Vou para dentro. Fundo. Cada vez mais fundo. Meus pensamentos agora fazem tanto barulho quanto lá fora. Muito barulho. Não dou bola. Fico apenas observando. Em alguns percebo me envolvendo emocionalmente. Mas vou me distânciando mais e mais. Quase nenhum pensamento. Apenas eu, meu corpo e minha respiração. Delícia. Impossível descrever a sensação. Mas é como se você entrasse num estado em que ficasse olhando para você mesmo, completamente dentro de você, consciênte de você. Livre de qualquer ansiedade, cobrança, preocupação com futuro, reponsabilidade ou qualquer coisa. Apenas ali, no que chamam de presente. Exceto por uma frase. Apenas uma insistente frase. Que permaneceu: Por que não dá certo? Por que não dá certo? E se repetia dentro da minha mente. Mas nesse momento eu já estava apenas como um telespectador olhando praquilo. Apenas olhando. E a palavra lá. Fiquei assim. Olhando. Sem sequer uma ansiedade ou possibilidade de resposta. Como se eu fosse um analfabeto olhando uma frase na lousa. Não sei quanto tempo se passou. Mas num instante a frase mudou para: Já deu certo. Nesse momento tive uma expansão da consciência e foi como se eu deslizasse para dentro de mim mesmo, dentro do meu sistema fisiológico. Como se eu pudesse ver claramente a complexidade dos orgãos, das glândulas, dos ossos, músculos, veias, sangue, e foi afunilando mais e mais. Vi os glóbulos no sangue, as células, as trocas celulares. Tudo impressionantemente rápido e claro, com uma lucidez incrível. E sem racionalizar a experiência, ou seja, ainda totalmente como telespectador. A resposta se fez exata, não na minha mente, mas no meu ser: Já deu certo. E como se não bastasse, mas para mim já havia bastado, da visão micro do organismo, fui para o oposto numa velocidade tão rápida quanto a primeira. Vi meu corpo sentado embaixo da árvore e fui subindo, vi o planeta onde esse corpo estava. Daí para outros planos que não ouso mencionar, fui para o momento da minha escolha, da decisão, do meu processo reencarnatório. Com um estouro de lucidez de tudo o que se passou para eu estar aqui, agora, nesse corpo, desse jeito, nesse lugar, com essas características, cores, pessoas, tudo, absolutamente tudo, per-fei-ta-men-te cer-to. E isso era tão claro para mim como respirar. Foi como se me mostrassem tudo. Como funciona e como funcionou.
Sinto meu peito se enchendo de ar como se eu estivesse respirando só aquela hora. Escuto as crianças brincando ao fundo, passos de pessoas, cachorros, bicicletas, sinto a formiga andando sobre minha perna agora. Obro meus olhos. Me impressiono pela coloração. Faz tempo que não vejo o mundo com esses olhos. Me espreguiço. Espero a circulação das minhas pernas voltarem. Me levanto com dificuldade. Ainda sem muita noção de tempo. Nem olho no relógio. Pego minha bicicleta e vou embora. A palavra? Sumiu. A resposta? Não preciso mais dela. Já deu tudo certo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sorte. Muita sorte.

Sorte por ter tido um filho maravilhoso e perfeito.

Sorte por fazer o que amo.

Sorte por estar numa agência grande.

Sorte por estar numa agência grande com pessoas de carater grande.

Sorte por conseguir ver meu filho, sempre, mesmo estando numa grande agência.

Sorte pelo que ganho dar para fazer tudo o que preciso.

Sorte por não ter perdido a ponta do dedo num acidente.

Sorte por ter me envolvido num acidente com um motoboy e ele estar vivo e inteiro.

Sorte pelo delegado não ter me prendido por eu estar dirigindo sem habilitação.

Sorte pelo rapaz ser do bem e ainda por cima arrumar um lugar mais barato para consertar a moto dele.

Sorte por dividir uma casa enorme e confortável com uma pessoa do bem que faz um trabalho do bem.

Sorte por ter uma família que me ama e se preocupa comigo.

Sorte por ter uma mãe forte e lúcida.

Sorte por ter um pai do qual eu me orgulho.

Sorte pela mãe do meu filho ama-lo acima de tudo.

Sorte por estudar temas espirituais elevadíssimos com pessoas de um nível elevadíssimo.

Sorte por ter amparadores que estão cuidando de mim. Me amparando.

Sorte por poder enxergar nas dificuldades e obstáculos da vida o que preciso aprender.

Sorte por ter tanta coisa boa envolta de mim.

Sorte por ter a oportunidade de trabalhar coisas boas dentro de mim.

Sorte por aprender tanta coisa em tão pouco tempo.

Sorte por aprender pela dor e pelo discernimento.

Sorte por aprender pela dor e por essa dor ser bem menor do que poderia ser se não fosse a sorte.

Sorte por manter minha integridade, mesmo diante da dúvida e da confusão.

Sorte por enxergar, finalmente, que sou um homem de sorte. De muita, muita sorte.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Que venha.

Que venha o amor, e junto com ele a responsabilidade pelo sentimento do outro.
Que venha a solidão, e junto com ela o desapego.
Que venha a solitude, e junto com ele o auto-conhecimento.
Que venha a dor, e junto com ela o aprendizado.
Que venha a conquista, e junto com ela a consciência de que tudo é passageiro.
Que venha a derrota, e junto com ela a cabeça do ego.
Que venha a vitória, e junto com ela a humildade.
Que venha a doença, e junto com ela a lembrança de que é só o corpo.
Que venha a saúde, e junto com ela a firmeza no dharma.
Que venha a alegria, e junto com ela os olhos brilhantes de Krisna.
Que venha a tristeza, e junto com ela a lembrança da polaridade de Hermes Trismegistro.
Que venha a compaixão, e junto com ela o Bhuda brilhando no coração.
Que venha o equilíbrio, e junto com ele a reverência à Lao T’sé.
Que venha a verdade, e junto com ele a sabedoria de Cristo.
Que venha o que vier, e junto com ele a gratidão, a gratidão e a gratidão.

Namastê.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pipoca com Sangue.

O cenário é hitchcockiano. Eles estão encurralados. Um atrás do outro. Um quer matar o outro. O outro quer se defender matando o um. Mas agora é inevitável. Eles estão frente a frente. Eles se encaram. Suas armas se encaram. Carregadas. É só puxar o gatilho. Putz, que embaço. Puxe o gatilho e acabe com isso de uma vez. Não,como puxar o gatilho? Gastamos uma fortuna pra prender a sua atenção até agora, e no momento crucial, quando o bandido e o mocinho vão resolver a parada, você quer que acabe assim? De jeito nenhum. Você quer mais do que uma bala entrando na cabeça do bandido. Ou do mocinho, sei lá. Tem gente que torce pro bandido. Cada um na sua. Claro, ficou banal. Pra que uma simples bala esborrachando a cabeça do nêgo? Você quer mais, quer ver o cara sendo degolado, tendo um olho vazado com um alfinete, quer o cara enforcado no lustre da sala. Melhor: lustre com ventilador pra ficar girando enquanto o nego se estrebucha. E, de preferência, em close e som dolby estéreo surround pra ver e escutar toda a agonia até o fim. Hum delícia. A gente para pra ver a violência. A gente sente prazer com a violência. O nêgo tá atrasado pacas, mas para no meio do caminho pra ver a distância que o braço do motoboy ficou do corpo depois de dar de frente com um ônibus. Só falta descer do carro e medir dando uns passinhos (aqueles medidos com o calcanhar de um pé encostado na ponta dos dedos do outro) pra depois contar pra todo mundo no escritório. Isso se não tirar uma foto pra twitar depois. É legal, é excitante. Uma simples bala na cabeça não tem graça. Aí você escuta fulano dizendo assim: “Nossa, o mundo está cada vez mais violento!” “Meu Deus!” “Nossa Senhora!” “Jesus, Maria, José!” Faz o sinal da cruz e tudo mais. Aí chega em casa, senta a bunda na frente da tevê com um saco de pipocas e molha, pipoca por pipoca, no sangue que escorre dela. Se lambuza com a selvageria.
Estamos mergulhados em sangue até o pescoço. E a cabeça? Não sei aonde foi parar. Procure um pouco mais pra frente que a pancada foi violenta. Você precisava ver.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Corre.

Olho em volta e percebo as pessoas correndo de um lado para o outro. Serro os olhos para enxergar melhor e procuro entender para onde. Para onde é que essa gente ta correndo tanto? Aí percebo que eu também estou correndo. Correndo para não sei onde. Talvez para preencher com os aplausos dos outros o vazio que meu ego insiste em clamar. Mas, para quê? Talvez para me sentir melhor por causa da sensação que isso traz. Ah, é bom aplausos de vez em quando. Mas a gente sabe que as mãos que aplaudem são as mesmas que condenam. Agora, tem mãos que aplaudem as coisas que a gente faz, as coisas que realmente valem a pena e que são as mesmas mãos que amparam, também. E essas mãos a gente não vê. Mas sente. Sente preenchendo de carinho aquele vazio que a alguns minutos insistia em angustiar a gente. Então eu olho para cima, e não mais em volta. E percebo os aplausos, sinto o carinho de quem realmente está olhando para o progresso da gente. Com um olhar confiante, não um olhar punitivo. E no lugar do vazio, sinto uma gratidão enorme pelo reconhecimento, não dos outros, mas de mim mesmo. Por bancar. Pela consciência das minhas limitações, meus medos e padrões entrando em choque aqui dentro. Onde o insistir começa a dar espaço ao fluir. A angústia dá espaço à degusta. E olho novamente à minha volta e vejo as mesmas pessoas correndo não sei para onde. E agora olho e sinto uma compaixão por me ver a alguns minutos também correndo assim. Como somos iguais. Aí percebo como vivemos entre a consciência e a inconsciência. Como é tênue o véu. Tão fino que num segundo já estamos adormecidos novamente no torpor que ela causa. Percebo como é importante a constante atenção, não para fora, mas para dentro. Para perceber para onde esse “ego” está me levando e, assim, parar de correr atrás dele e fazer com que ele passe a correr atrás de mim. E assim deixá-lo bem para trás. Tão para trás que nunca mais vai conseguir me alcançar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Péga, Rex.

Para de reclamar, pelo amor de Deus! Sai pra lá, ô coisa ruim. Nunca tá feliz com nada. Se tem emprego, reclama do salário. Se não tem, reclama também. Se tá chovendo, reclama. Se faz sol, é porque não é fim de semana. Se tem trabalho, reclama que está estressado, ou dá a desculpa de que está. Se não tem, reclama achando que a empresa tá mal das pernas e se desespera achando que vai ser mandado embora. Se tá namorando, reclama da encheção de saco da namorada. Se não está, reclama que cansou de ficar sozinho. Putisgrila! A reclamação não tem fim! Imagine como fica a vida. Ela não sabe pra onde correr, como agradar o infeliz. Fica que nem cachorro correndo atrás do rabo. Mas, se só corresse atrás do rabo, tava bom. O pior é que fica latindo. E na sua orelha. Dá pra aguentar? Às vezes, é difícil, claro que é. Mas poderia ser mais suportável sem os “corredores atrás de rabos” latindo na nossa orelha. E ainda por cima acabam nos influenciando com o falatório, digo, latido. A gente até acaba olhando pro nosso rabo de canto de olho, e sem querer já vem aquela vontade de pegá-lo. Mas, quando o nêgo chega do meu lado e começa, eu já logo arrumo um pauzinho e jogo pra ele pegar. O cara vem e reclama que não aguenta mais trabalhar, que está com o saco cheio e blá, blá, blá (visualize esse blá-blá-blá bem babado, pesado, daqueles que a gente até inclina o corpo um pouco pra trás enquanto o nêgo blá). Aí eu dou uma olhadinha pra trás e, ao invés de tentar pegar o meu rabo, pego um pauzinho e lanço. Mas, viu! Porque você não aproveita e tenta se divertir um pouco? É, com o seu trabalho. Inventa alguma coisa legal aí. Sei lá. Escreve um texto. Mas, pelo amor de Deus, para de reclamar, Rex. É até bonito de ver. O nêgo senta em cima do rabo e começa a trabalhar que é uma beleza. Começa a produzir. A se ocupar. É até um pouco de terapia ocupacional. Quando começo a olhar pro meu rabo, já sento e escrevo alguma coisa. Qualquer coisa. Até mesmo uma baboseira como essa. E assim esqueço de correr atrás do dito cujo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Melhor, talvez.

Isso é mutto difícil para mim: encontrar as palavras certas para dizer. Tentar encontrar o caminho certo para seguir, mesmo sabendo que o melhor caminho é o mais assustador. Temos tumores enormes dentro do peito que vão crescendo cada vez que encontramos estes caminhos e principalmente por desviarmos deles. É preciso sofrer para amar senão não é amor. Mas quem quer sofrer? Galinha é assim: insiste no erro. Não aprende nunca. Mas também quem aprende? Ninguém sabe nada sobre isso. Só Afrodite. Mas acredite, todo mundo acredita nisso, cegamente vai em frente tentando encontrar. Procurando em todo lugar. Em cima, embaixo, de um lado e de outro. Desesperadamente sonham e imploram pra santos e demônios o amor verdadeiro. Mas esse negócio de falar de amor é uma grande pieguisse. Um saco. Eles dizem que isso é algo que se sente. Outros que é algo imaginário. Os primeiros mais sorridentes que os outros, claro, torcem por eles. E a gente ouvindo de um lado, pensando do outro, vai seguindo. Mas quando dá de cara com o negócio, perde as estribeiras. A maioria cai do cavalo. Mas preferem dizer que já viveram o lance e vivem agora acariciando as cicatrizes, mostrando pra todo mundo como se fossem troféus. Mas todo mundo que já passou por isso sabe o que passou e sabe que passou. Aprendeu o que tinha que aprender. Tirou suas milhares de conclusões sobre o assunto, anos e anos até. Mas sabem exatamente onde estão e como são. Com certeza pessoas melhores. Um pouco mais duras, mas melhores.