segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pipoca com Sangue.

O cenário é hitchcockiano. Eles estão encurralados. Um atrás do outro. Um quer matar o outro. O outro quer se defender matando o um. Mas agora é inevitável. Eles estão frente a frente. Eles se encaram. Suas armas se encaram. Carregadas. É só puxar o gatilho. Putz, que embaço. Puxe o gatilho e acabe com isso de uma vez. Não,como puxar o gatilho? Gastamos uma fortuna pra prender a sua atenção até agora, e no momento crucial, quando o bandido e o mocinho vão resolver a parada, você quer que acabe assim? De jeito nenhum. Você quer mais do que uma bala entrando na cabeça do bandido. Ou do mocinho, sei lá. Tem gente que torce pro bandido. Cada um na sua. Claro, ficou banal. Pra que uma simples bala esborrachando a cabeça do nêgo? Você quer mais, quer ver o cara sendo degolado, tendo um olho vazado com um alfinete, quer o cara enforcado no lustre da sala. Melhor: lustre com ventilador pra ficar girando enquanto o nego se estrebucha. E, de preferência, em close e som dolby estéreo surround pra ver e escutar toda a agonia até o fim. Hum delícia. A gente para pra ver a violência. A gente sente prazer com a violência. O nêgo tá atrasado pacas, mas para no meio do caminho pra ver a distância que o braço do motoboy ficou do corpo depois de dar de frente com um ônibus. Só falta descer do carro e medir dando uns passinhos (aqueles medidos com o calcanhar de um pé encostado na ponta dos dedos do outro) pra depois contar pra todo mundo no escritório. Isso se não tirar uma foto pra twitar depois. É legal, é excitante. Uma simples bala na cabeça não tem graça. Aí você escuta fulano dizendo assim: “Nossa, o mundo está cada vez mais violento!” “Meu Deus!” “Nossa Senhora!” “Jesus, Maria, José!” Faz o sinal da cruz e tudo mais. Aí chega em casa, senta a bunda na frente da tevê com um saco de pipocas e molha, pipoca por pipoca, no sangue que escorre dela. Se lambuza com a selvageria.
Estamos mergulhados em sangue até o pescoço. E a cabeça? Não sei aonde foi parar. Procure um pouco mais pra frente que a pancada foi violenta. Você precisava ver.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Corre.

Olho em volta e percebo as pessoas correndo de um lado para o outro. Serro os olhos para enxergar melhor e procuro entender para onde. Para onde é que essa gente ta correndo tanto? Aí percebo que eu também estou correndo. Correndo para não sei onde. Talvez para preencher com os aplausos dos outros o vazio que meu ego insiste em clamar. Mas, para quê? Talvez para me sentir melhor por causa da sensação que isso traz. Ah, é bom aplausos de vez em quando. Mas a gente sabe que as mãos que aplaudem são as mesmas que condenam. Agora, tem mãos que aplaudem as coisas que a gente faz, as coisas que realmente valem a pena e que são as mesmas mãos que amparam, também. E essas mãos a gente não vê. Mas sente. Sente preenchendo de carinho aquele vazio que a alguns minutos insistia em angustiar a gente. Então eu olho para cima, e não mais em volta. E percebo os aplausos, sinto o carinho de quem realmente está olhando para o progresso da gente. Com um olhar confiante, não um olhar punitivo. E no lugar do vazio, sinto uma gratidão enorme pelo reconhecimento, não dos outros, mas de mim mesmo. Por bancar. Pela consciência das minhas limitações, meus medos e padrões entrando em choque aqui dentro. Onde o insistir começa a dar espaço ao fluir. A angústia dá espaço à degusta. E olho novamente à minha volta e vejo as mesmas pessoas correndo não sei para onde. E agora olho e sinto uma compaixão por me ver a alguns minutos também correndo assim. Como somos iguais. Aí percebo como vivemos entre a consciência e a inconsciência. Como é tênue o véu. Tão fino que num segundo já estamos adormecidos novamente no torpor que ela causa. Percebo como é importante a constante atenção, não para fora, mas para dentro. Para perceber para onde esse “ego” está me levando e, assim, parar de correr atrás dele e fazer com que ele passe a correr atrás de mim. E assim deixá-lo bem para trás. Tão para trás que nunca mais vai conseguir me alcançar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Péga, Rex.

Para de reclamar, pelo amor de Deus! Sai pra lá, ô coisa ruim. Nunca tá feliz com nada. Se tem emprego, reclama do salário. Se não tem, reclama também. Se tá chovendo, reclama. Se faz sol, é porque não é fim de semana. Se tem trabalho, reclama que está estressado, ou dá a desculpa de que está. Se não tem, reclama achando que a empresa tá mal das pernas e se desespera achando que vai ser mandado embora. Se tá namorando, reclama da encheção de saco da namorada. Se não está, reclama que cansou de ficar sozinho. Putisgrila! A reclamação não tem fim! Imagine como fica a vida. Ela não sabe pra onde correr, como agradar o infeliz. Fica que nem cachorro correndo atrás do rabo. Mas, se só corresse atrás do rabo, tava bom. O pior é que fica latindo. E na sua orelha. Dá pra aguentar? Às vezes, é difícil, claro que é. Mas poderia ser mais suportável sem os “corredores atrás de rabos” latindo na nossa orelha. E ainda por cima acabam nos influenciando com o falatório, digo, latido. A gente até acaba olhando pro nosso rabo de canto de olho, e sem querer já vem aquela vontade de pegá-lo. Mas, quando o nêgo chega do meu lado e começa, eu já logo arrumo um pauzinho e jogo pra ele pegar. O cara vem e reclama que não aguenta mais trabalhar, que está com o saco cheio e blá, blá, blá (visualize esse blá-blá-blá bem babado, pesado, daqueles que a gente até inclina o corpo um pouco pra trás enquanto o nêgo blá). Aí eu dou uma olhadinha pra trás e, ao invés de tentar pegar o meu rabo, pego um pauzinho e lanço. Mas, viu! Porque você não aproveita e tenta se divertir um pouco? É, com o seu trabalho. Inventa alguma coisa legal aí. Sei lá. Escreve um texto. Mas, pelo amor de Deus, para de reclamar, Rex. É até bonito de ver. O nêgo senta em cima do rabo e começa a trabalhar que é uma beleza. Começa a produzir. A se ocupar. É até um pouco de terapia ocupacional. Quando começo a olhar pro meu rabo, já sento e escrevo alguma coisa. Qualquer coisa. Até mesmo uma baboseira como essa. E assim esqueço de correr atrás do dito cujo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Melhor, talvez.

Isso é mutto difícil para mim: encontrar as palavras certas para dizer. Tentar encontrar o caminho certo para seguir, mesmo sabendo que o melhor caminho é o mais assustador. Temos tumores enormes dentro do peito que vão crescendo cada vez que encontramos estes caminhos e principalmente por desviarmos deles. É preciso sofrer para amar senão não é amor. Mas quem quer sofrer? Galinha é assim: insiste no erro. Não aprende nunca. Mas também quem aprende? Ninguém sabe nada sobre isso. Só Afrodite. Mas acredite, todo mundo acredita nisso, cegamente vai em frente tentando encontrar. Procurando em todo lugar. Em cima, embaixo, de um lado e de outro. Desesperadamente sonham e imploram pra santos e demônios o amor verdadeiro. Mas esse negócio de falar de amor é uma grande pieguisse. Um saco. Eles dizem que isso é algo que se sente. Outros que é algo imaginário. Os primeiros mais sorridentes que os outros, claro, torcem por eles. E a gente ouvindo de um lado, pensando do outro, vai seguindo. Mas quando dá de cara com o negócio, perde as estribeiras. A maioria cai do cavalo. Mas preferem dizer que já viveram o lance e vivem agora acariciando as cicatrizes, mostrando pra todo mundo como se fossem troféus. Mas todo mundo que já passou por isso sabe o que passou e sabe que passou. Aprendeu o que tinha que aprender. Tirou suas milhares de conclusões sobre o assunto, anos e anos até. Mas sabem exatamente onde estão e como são. Com certeza pessoas melhores. Um pouco mais duras, mas melhores.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Nada.

Minha mente quer me pregar uma peça. Reluto pra não cair nessa. Mas a arquitetura que se desenrola é comprovante. Um pedaço meu dá de ombros. O estômago doi. O corpo reage ao que a mente confirma. Bode. Asco. Elas se enfileram na minha frente como pedaços de carne podre. Que não desce mais. Fica preso na minha garganta. Mas eu comi. Não quero acreditar nisso. Mas minha alma sofrida acredita piamente. Vai ver é por isso que o sentimento é tão forte. Fica registrado no subconsciente. Não do cérebro. Mas da mente. Aí entendo a identificação com o troço. E a indignação. Acolhida pelo meu orgulho. Ligo um foda-se. Mas isso também me incomoda. Tem raiva. Não é legal. Mas foda-se. Uma outra hora olho isso. Agora deixo meu corpo expressar o que ele quiser. Até porque, enquanto eu não entendo, eu sinto. A sensibilidade aumentou. Cho-Ku-Rei. Quanto mais luz, mais trevas. É outra coisa que estou entendendo também. Aprender pra dominar. Pra não ser dominado. E o problema é esse. Tá enfileirado. Não tem maior ou menor. São iguais. E quando é assim. Nada mudou. Só as experiências. O que se tirou delas continua o mesma. Nada. Ou seja. (?). Nesse momento abre-se outra perspectiva. Mas nem ouso olhar. Porque senão, o bicho vai pegar. E é só ego. Tudo, absolutamente, tudo é a porra do ego.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dá um tempo.

Carrego sempre um livro comigo. E o tema que mais gosto é a espiritualidade. Nada a ver com religião ou esse monte de merda que a gente vê por aí. Leio sobre os Caras. Não sobre quem escreveu sobre os Caras. Mas principalmente sobre caras, na maioria deles, pesquisadores céticos, como eu, que escreveram sobre esses Caras. Gênios e pensadores, filosofos, padres, yogues, psicoterapeutas, jornalistas. Que olham as coisas dessas coisas pelo crivo do discernimento e não pela crença. Crença é para quem não tem cérebro. Para quem não pensa. Discernimento é buscar entendimento sobre o negócio. Ir a fundo no assunto. E não ficar na superfície onde a maioria dos preguiçosos sem cérebro preferem ficar. Até porque é mais cômodo acreditar em algo do que investigar. Duvido neguinho sentar a bunda lá para ver se o que os milhares escrevem é real. Êxtase, transe, samadhi, contemplação, esses estados alterados de consciência tem em todas, repito, todas as religiões do mundo. É só pesquisar. Mas é o que dizem, viu. Não acredite em nada, absolutamente nada do que dizem sobre o assunto. Vai lá e experimente. Mas ninguém quer. E pior, vem encher o saco de quem quer. Pois é, religião não se discute. Concordo. Mas quem aqui tá falando em religião, carapalida? É muito simples. É lógico, matemático, até. Povos diferentes tem costumes diferentes e rituais diferentes. A essência do ser humano é a busca do divino. Todo mundo sabe disso, é a eterna busco do homem a milênios. Por isso tema de revistas, programas e documentarios até hoje. Capa da Super desse mês tá aí pra não me deixar mentir: Deus. Uma Biografia. Agora a pergunta? Se todo mundo de um jeito ou de outro busca o divino, por que tem neguinho que enche a porra do meu saco se uso um japa-mala no pulso? Ou se leio um livro com Jesus escrito na capa ou Mudrás, ou Budha, ou a puta que pariu? Que merda. Esses dias me peguei escondendo o livro por, entre aspas, medo do julgamento dos outros. Aí me peguei nessa vibe e pensei. Tô cagando para o que vão achar. Eu estou atrás de conhecimento, poxa. De sabedoria. Atrás de referências para me melhorar. Para tentar me tornar um cara um pouco melhor. Menos irritável, mais tolerante, menos julgativo, mais amoroso, mais otimista. Mais amável. Mas neguinho não ajuda, porra. Quero crescer. Quero entender. Conhecer e me conhecer. Tenho sede disso. Sou fascinado por isso. Pelo Bhagavad Gita, à propósito um épico belíssimo, que conta a história de um guerreiro chamado Arjuna que está no campo de batalha contra o exército “do mal”, digamos assim. Uma analogia entre a guerra do homem versus o ego. É sensacional. A gente vive isso diariamente. Um conflito interno tremendo. O melodioso Krishna. Sem falar no Tao Te King, do chinês Lao Tsé. O Livro dos Espíritos do Alan kardec, leia-se do Alan kardec, não do espiritismo. O Budha. Os Bodhisattvas, os guias da Umbando, os caboclos, a beleza e a sinceridade dos exus. Os mestres yogues. O hermetismo do antigo Egíto, de Hermes Trismegistro. O Xamanismo com os xamãs e sua adoração pela Mãe Terra. A Cabala do judaísmo. Os santos católicos, homens e mulheres apaixonantes pelo amor sincero ao Cristo Homem. Não o inventado. O vendido. Enfim, todos caminhos, exemplos, setas que mostram o caminho, os diversos caminhos diferentes para o mesmo fim. Ou seja, siga o caminho que quiser. Tem milhares e são belíssimos. Vai fazer bem pra você. Faça isso ao ivés de encher o saco dos outros com piadinhas sobre o que usam no braço ou o sobre o que leem. Porque isso é o tipo de coisa, se não for a única, que faz das pessoas hoje, um pouco melhores do que foram ontem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Vai doer.

Está tudo perfeito. Sol batendo suavemente na pele. Crianças sorrindo em plena harmonia com os pais em um parque belíssimo. Uma harmonia pura e imaculada em cada pedaço verde de lá. Meu corpo estático. Minha respiração pequena debaixo de uma grande árvore. Coluna ereta. Dela sai uma raiz profunda abraçando a terra. Sugando o néctar da energia telúrica que sobe e se concentra no meio do meu peito. Do topo da minha cabeça também desce o prana como se ela estivesse enterrada no céu. E a raiz agora da energia cósmica nutre minha glândula pineal que se acende e impulsiona essa energia também para o meio do meu peito. Então sinto o Grande Espírito em mim. Manitu. Fico assim. Sem pensar. Apenas sendo isso. E aquilo. Tudo. A criança. Sinto sua respiração em mim. Sinto os músculos do seu pequeno corpo se contraírem para segurar a balança. O aço gelado da corrente da balança na palma das suas mãos. Sou o sorriso do pai vendo aquilo. Sou a criança. Sou o pai. Sou a grama. Sou nada. Fico minúsculo quando percebo o espaço. Como se uma câmera de mim subisse para bem alto. Meu Deus. Não sei se aguento. Calma, ainda não. Falta maturidade para sentir algo desse tamanho. Gratidão. Uma gratidão me envolve e fico só nisso. Me sinto pequeno, muito pequeno. E nessa pequinez me entrego, me ajoelha e agradeço. A tudo. Ao que eu nem sei direito o que é. Mas sinto. E percebo a grandiosidade da coisa. Sei que é algo que minha mente analítica não tem capacidade de entender ainda. Minhas pernas doem por falta da circulação. Tento manter minha conscência onde estava. Mas é impossível. Ela está no meu corpo agora. No “meu” corpo. Identificação. Ego. Eu. Estou de volta. Mas diferente. Algo grande nesse peito pequeno. Abro os olhos. Vejo as crianças brincando no parque lá na frente. Uma mulher correndo. O sol batendo na grama. Tudo perfeito. Descruzo minhas pernas com as mãos. Elas estão dormentes. Uma hora. Perco a noção do tempo em que estive ali. Espero a circulação voltar as pernas. Sinto uma dor muito grande quando isso acontece. Me acostumei com ela. Me levanto e vou caminhando em direção a bicicleta. Minha percepção ainda está dilatada. Ainda em expansão. Observando. Um sentimento grande no peito. Diferente. Estou bem. Muito bem. Mas não sinto a felicidade que normalmente sinto quando tenho a sorte de uma experiência assim. Então me aproximo um pouco mais daqueles pais e crianças no parque. Passo por eles. Meu peito se aperta. Muito apertado. E escuto dentro de mim: vai doer. Meu peito se aperta ainda mais. Não consigo controlar a emoção. Como assim vai doer? Está tudo lindo, tudo perfeito. A voz dentro de mim se repete: vai doer. Meus olhos correm rapidamente para as pessoas, as crianças, os sorrisos. Seguro um pouco. Pessoas olham para mim. Olho para o chão escondendo as lágrimas. Pego minha bicicleta e corro para o meio do parque o mais longe possível das pessoas. Por que vai doer? Pergunto dentro de mim. E a resposta vem em seguida. Sem dó: uma hora vai doer. O pai vai perder o filho. O filho vai perder o pai. A perda. A doença. A morte. Porque tem que ser assim? Insisto agora já soluçando. Uma imagem preenche minha tela mental. Shiva. O transformador. Despenco na grama em um choro copioso. Profundo. Muita dor. Deito de costas na grama. Aperto a terra com as mãos. Olha as nuvens e não entendo porque estou chorando desse jeito. Porque está doendo tanto? Eu sabia que não ai aguentar. Por que estou chorando assim? Não escuto nada. Mais nada. Deixo a última gota dessa dor se esvair totalmente de mim. Enxugo os olhos e procuro não olhar para mais ninguém. Apenas deixo aquilo tudo se aquietar dentro do meu peito. Dentro de minha alma. O que foi aquilo? No caminho para casa vejo um homem fora do carro. Meus olhos se encontram com os dele. Ele pede ajuda. Eu escuto através dos seus olhos. Tenho que ir para casa. Impossível ignorar. Volto e empurro seu carro. Saio. Chego finalmente em casa. Encontro minha amiga. Pergunto para ela o que foi aquilo. Ela me responde. “Foi a dor do mundo”. O que? “Você sentiu a dor do mundo Leandro”. Então uma sucessão de imagens e textos de alguns dos milhares de livros que já li fizeram sentido naquele momento. Meus Deus. Então é isso. Aí finalmente compreendi, não com a mente, mas com a alma a frase do Budha que diz o seguinte: “Abaixo a iluminação só existe dor”.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Filmão.

De uns tempos para cá, tenho feito uma experiência interessante. Assumi a postura de um telespectador da vida. Sim, sou o ator principal da minha vida, mas enquanto o filme vai rolando, eu vou interagindo com os personagens e observando, ao mesmo tempo. Como se houvesse uma outra câmera, de mim mesmo, filmando tudo por outro ângulo. É legal perceber como as coisas da vida e as situações vão chegando e a gente vai se envolvendo e criando uma trama complexa que, ora vira um drama que se mistura com um suspense e vai se transformando numa miscelânea de gênero incrível. E, olhando pela câmera 2, percebi que tem outros telespectadores, como as pessoas que ficam no cinema torcendo a favor, sabe? Meio que dizendo: “Por aí não, vai por ali. Por aí, você vai se estrupiar.” E a gente lá, como o personagem principal, totalmente envolvido e fazendo as coisas sem pensar. Tudo pela emoção. Vai sentindo o que a vida traz e reagindo sem pensar nas conseqüências. Sem pensar nas outras pessoas envolvidas. Sem pensar no humor do diretor que pode mudar o script a qualquer momento. Aí, fiquei só olhando. Fiquei aqui, assistindo ao filme da minha própria vida. E ficou claro, para mim, que não é a gente que escreve a história da nossa vida, não. Somos nós que damos o gênero do filme da nossa vida. Porque pode acontecer algo muito drástico, mas a gente pode fazer disso uma comédia, talvez, ou um romance, sei lá. Quem disse que tem que ser um drama? Aí percebo também a grandiosidade de filmes como “A vida é Bela” - La vita è bella, no original - um filme italiano de 1997, dirigido e protagonizado por Roberto Benigni que, não canso de rever. E, olha que engraçado, o gênero do filme é comédia dramática. Não é genial?
É mais ou menos assim: se sua vida está desmoronando, não adianta ficar tentando segurar os muros que você vai se machucar. Também não adianta ficar embaixo se fazendo de vítima que o muro vai cair na sua cabeça e, além de você se machucar, vai dar um trabalhão danado para outras pessoas tirarem você de lá de baixo. O lance é dançar sobre os escombros, desviar dos muros e observar o que se vai e o que se fica. E depois ver com calma, confiando no diretor o que se pode construir ali. Ou mesmo nem construir nada, quem disse também que algo tem que ser construido, ali? A idéia é observar de fora se preocupando não com o muro que está caindo. Mas sim com a própria cabeça. E só depois ver o que se pode fazer disso tudo.
E, então, vamos olhar de longe e dançar sobre os escombros da vida ou ficar embaixo se fazendo de vítima, esperando o muro cair na nossa cabeça?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Uma experiência meditativa.

Dentro de mim tem muito mais de mim do que eu imaginava. Mais do que isso, não tem nada de mim, do que eu sou agora. Tem outra coisa. Desconfigurada. Sem personalidade, sem tamanho, estatura, peso, cor, idade, sexo ou classe social. E é tão imenso que quando percebi, me calei. Calei na alma. Um silência como nunca tinha escutado. Profundo. E entendi o nauna, o silêncio da alma. Foi como se a casca do que eu sou hoje se espatifasse e eu pudesse ver o que tem dentro. Mas ver sem racionalizar. Apenas sentir. A essência do ser. O eterno em mim. E nesse estado foi como se o mundo que vejo hoje ficasse pífio. Mas não pela insignificância da importância do que é, mas pela insignificância do tamanho que é. Foi como se o todo de mim percebesse a parte de mim. Essa parte que vivo hoje, que se manifesta hoje, nesse momento, nesse corpo e nesse mundo. E olhou com repeito à isso. Mas com a visão do tamanho da eternidade. Sem a ansiedade, o peso, o compromisso do tempo. Um apenas ser. Realmente. E tudo isso durou mais ou menos um milésimo de segundo. E então me prostrei em reverência e agradeci: Namastê Babaji.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quero um Samadhi.

Quero voar.
Para além de mim mesmo.
Além do além.
Onde o tempo não tem fim, e o sentimento seja bem assim: supremo.
Quero plainar sobre os campos com os serafins.
Cantando a melodia do bem.
Com o coração do tamanho do vento.
E ficar assim sem parar,
sem medo de voltar,
sem me preocupar,
sem receio de falhar.
Sentindo o vento no rosto,
enxugando as lágrimas da emoção,
acariciando mais e mais meu coração.
Quero sentir o peito inchado como um balão.
As mãos doendo de tanta pressão.
Olhando de olhos fechados o mundo real.
Rasgando maya ao meio para nunca mais voltar.
Mas sei que depois disso tenho que voltar.
A vontade é de ficar.
Porque em casa é onde quero estar.
Mas sei que cada volta é melhor do que qualquer ida.
Porque volto melhor do que fui.
E assim vai.
Aprendendo com o coração na mão.
Envolto pela luz da emoção.
Quero voar. Ah, como quero voltar a voar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eu, eu mesmo e a idade.

Putz, acho que estou ficando velho. Que velho que nada, ô. Você tá é bobo. Mas chego na academia e me chamam de vovozinho. Tenho até três amigas na hidroterapia que estou quase marcando um chá pra sábado à tarde. A caçula tem 89 anos. Meus amigos me chamam de vovó. Meu joelho dói. Meu ombro dói. Pensei em até comprar um carro de velho. Aquelas barcas, sabe? Tenho um. E se saio durante a semana não acordo na manhã seguinte. Se acordo, parece que peso uns 480 quilos. Se tomo meia dúzia de cervejas, ponho tudo pra fora. Meu fígado quer morrer. Bom, pelo menos ainda não me chamaram de Hugo. Depois fico assim, como um urso saindo do período de hibernação, o dia inteiro. Se tomo uma xícara de café antes de dormir, fico fritando na cama até as 5 da madruga. Tenho até vergonha de falar pro meu irmão – que dorme de dia e trabalha de noite e não é em prostituição – pra fazer menos barulho e que uma respirada mais forte eu acordo e não durmo mais. E essa moçada, eles saem de segunda a segunda. Quando me convidam, minhas pernas até começam a tremer. Olho pro meu primo e penso: puxa, eu já fui bom assim. Que delícia essa época. Será que abusei tanto nesses 7 anos. Meu primo só tem 21 anos, de pura virilidade, empolgação e uma disposição que só de ver já fico cansado. Relaxa, você só não tem mais 20 anos, meu chapa. Nossa, estou indo pros 35. Socorro. Olha só, você ainda é jovem, gosta de rock’n roll, faz esportes radicais. Fazia, imbecil, fazia. Esqueceu que da última vez arrebentei o joelho? Ah, tinha me esquecido. Até que você ficou de muleta e depois de bengala um tempão, né? Rá, rá, é por isso que estão te chamando de vovozinho… e você achando que é por causa da idade. Não enche você também, vai. Hiiii, véio e ranzinza, é? Para com isso, não me chateie mais do que eu mesmo. Mas você está falando com você mesmo. É, eu sei, mas você poderia ser um pouco menos, como eu posso dizer… Sincero? É, sincero. Tudo bem, então o que você quer ouvir? Que está fazendo 35 anos e que… hei, quem disse que você vai fazer 35 anos? Ah, são 34 anos, mas são quase 35, né? Putz, se eu não fosse você, te enfiava a mão na cara. Ô loco! Não precisa ser assim tão sincero também, né? Cale a boca, escute aqui. Claro que escuto, não tem outro jeito mesmo de te ignorar. Fica o tempo todo me… Chega!!!!!! Ou você para com essa paranóia de que está ficando velho, ou vou te dar uma enxaqueca dos diabos. Tá bom, tá bom. Parei. Mas que eu adoro Frank Sinatra e vim trabalhar hoje escutando Luís Miguel, eu vim…. Ai!!!Alguém tem uma Neosaldina aí?

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Que presente?

Tem um monte de gente, mestre de sei lá o que, guru de num sei da onde, que fica dizendo que tem que viver o presente, esquecer o passado e que o futuro não existe. Bo-ba-gem. A mais pura babaquice, isso aí. Primeiro que, ninguém, absolutamente ninguém, sabe o que faz, como faz e porque faz. A maioria das pessoas agem por impulso, por emoção, e com uma roupagem enganosa de razão. Dizem que tomaram certa atitude por escolha consciente. Aonde? A gente vive escolhendo por impulso, comprando por impulso, magoando por impulso, agindo por impulso, como animais cheios de instinto. E instinto sexual ainda por cima. Mais animalesco ainda. Ué, é só olhar em volta. Repara um pouquinho como a vida está. Como os seres humanos estão. Como você está. É um comendo o outro, do ambiente aí do seu lado no trabalho, dentro da sua casa na sua família, socialmente então, nem se fala. E ainda vem neguinho dizer pra viver o presente? Nem fudendo. Para tudo. Não faça nada, que quanto mais você faz, quanto mais você vive o presente, achando que está vivendo totalmente o presente, mais você se enrola em emoções mal resolvidas do passado que apenas se repetem em escolhas inconscientes que você faz hoje. Tá vivendo o presente nada. Tá só é repetindo padrão que nem galinha em laboratório que toma choque pra comer o milho, e volta a tomar choque de novo e de novo e de novo. O que muda são as circunstâncias, são as pessoas. A intensidade do lance, um pouco mais ou um pouco menos. Mas é tudo igual. É padrão. “Eu sou assim”, lembra? Não é isso que você repete que nem papagaio pra todo mundo? Então. Pois é. Mas, quando você começa a perceber o que está fazendo, aí o negócio muda de figura. Aí começa a ganhar entendimento, lucidez, e aí sim você pode começar a escolher mais consciêntemente as coisas, a, finalmente, viver melhor o presente. Saindo do cliclo vicioso que você mesmo criou. De cagadas que você teima em repetir na vida. Sabe aquela pessoa que faz uma cagada atrás da outra? Então, pois é. É assim que é. E não são as pessoas que chegam na vida dela que são uns cocôs, não. Ela é que é.
Olha, só. Tem um texto que gosto muito de um livro chamado “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” de Sogyal Rinponche, que é intitulado de “Autobiografia em 5 capítulos” que é assim:

1. Ando pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Eu caio... Estou perdido... Sem esperança. Não é culpa minha. Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada.Mas finjo não vê-lo.Caio nele de novo. Não posso acreditar que estou no mesmo lugar. Mas não é culpa minha. Ainda assim leva um tempão para sair.

3. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Vejo que ele ali está. Ainda assim caio... É um hábito. Meus olhos se abrem. Sei onde estou. É minha culpa. Saio imediatamente.

4. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Dou a volta.

5. Ando por outra rua.”

Desculpa, mas a maioria das pessoas não sai do segundo capítulo. E teimam em “viver o presente” caindo nos mesmos buracos incessantemente. E o que é pior, culpam os outros por colocar o buraco ali. Fala sério. Enquanto a gente não parar para olhar para os buracos que carregamos dentro da gente, ninguém vai sair do lugar. E vai ser impossível viver qualquer coisa na sua plenitude, realmente.

Que presente?

Tem um monte de gente, mestre de sei lá o que, guru de num sei da onde, que fica dizendo que tem que viver o presente, esquecer o passado e que o futuro não existe. Bo-ba-gem. A mais pura babaquice, isso aí. Primeiro que, ninguém, absolutamente ninguém, sabe o que faz, como faz e porque faz. A maioria das pessoas agem por impulso, por emoção, e com uma roupagem enganosa de razão. Dizem que tomaram certa atitude por escolha consciente. Aonde? A gente vive escolhendo por impulso, comprando por impulso, magoando por impulso, agindo por impulso, como animais cheios de instinto. E instinto sexual ainda por cima. Mais animalesco ainda. Ué, é só olhar em volta. Repara um pouquinho como a vida está. Como os seres humanos estão. Como você está. É um comendo o outro, do ambiente aí do seu lado no trabalho, dentro da sua casa na sua família, socialmente então, nem se fala. E ainda vem neguinho dizer pra viver o presente? Nem fudendo. Para tudo. Não faça nada, que quanto mais você faz, quanto mais você vive o presente, achando que está vivendo totalmente o presente, mais você se enrola em emoções mal resolvidas do passado que apenas se repetem em escolhas inconscientes que você faz hoje. Tá vivendo o presente nada. Tá só é repetindo padrão que nem galinha em laboratório que toma choque pra comer o milho, e volta a tomar choque de novo e de novo e de novo. O que muda são as circunstâncias, são as pessoas. A intensidade do lance, um pouco mais ou um pouco menos. Mas é tudo igual. É padrão. “Eu sou assim”, lembra? Não é isso que você repete que nem papagaio pra todo mundo? Então. Pois é. Mas, quando você começa a perceber o que está fazendo, aí o negócio muda de figura. Aí começa a ganhar entendimento, lucidez, e aí sim você pode começar a escolher mais consciêntemente as coisas, a, finalmente, viver melhor o presente. Saindo do cliclo vicioso que você mesmo criou. De cagadas que você teima em repetir na vida. Sabe aquela pessoa que faz uma cagada atrás da outra? Então, pois é. É assim que é. E não são as pessoas que chegam na vida dela que são uns cocôs, não. Ela é que é.
Olha, só. Tem um texto que gosto muito de um livro chamado “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” de Sogyal Rinponche, que é intitulado de “Autobiografia em 5 capítulos” que é assim:

1. Ando pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Eu caio... Estou perdido... Sem esperança. Não é culpa minha. Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada.Mas finjo não vê-lo.Caio nele de novo. Não posso acreditar que estou no mesmo lugar. Mas não é culpa minha. Ainda assim leva um tempão para sair.

3. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Vejo que ele ali está. Ainda assim caio... É um hábito. Meus olhos se abrem. Sei onde estou. É minha culpa. Saio imediatamente.

4. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Dou a volta.

5. Ando por outra rua.”

Desculpa, mas a maioria das pessoas não sai do segundo capítulo. E teimam em “viver o presente” caindo nos mesmos buracos incessantemente. E o que é pior, culpam os outros por colocar o buraco ali. Fala sério. Enquanto a gente não parar para olhar para os buracos que carregamos dentro da gente, ninguém vai sair do lugar. E vai ser impossível viver qualquer coisa na sua plenitude, realmente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bunda lelê.

Nossa, olha que maravilha, que coisa espetacular. Brasilidade à flor da pele ou da calça, pra ser mais exato. Mas, e daí? E o resto? Ah, o resto é resto. É nada, como resto? Põe a calça e vai embora. Sei lá, não penso assim, não. Só penso que não penso assim, mesmo porque, se for verbalizar ou entrar em qualquer discussão sobre isso, ponho mais a minha masculinidade ou o meu rabo em discussão do que a própria bunda da moça que acabou de passar. Mas penso sim. Claro que, na maioria das vezes, só a bunda fala mais do que o resto. Ou o resto não é nada sem a bunda. Mas a bunda com um bom resto é melhor ainda. Pelo menos pra mim é. Com um olhar, com um beijo, com um abraço, com um sorriso. Com um resto que faça da própria um detalhe. Não que bunda não seja importante, até porque amor do pescoço pra cima é amor platônico. Conheço pessoas que vivem com uma bunda, casam-se com uma. Sim, olho pra elas e só vejo isso, mais nada. E alguns deles antes de assumirem a Dona Bunda me puxaram pela camisa dizendo com olhar penetrante e voz sussurrada: “olha aquela bunda!” Hoje estão com a dita cuja. O pior é quando elas sentam pra tentar esboçar um diálogo menos anal, digamos assim, e a conversa não sai do lugar, até porque elas se sentam. Não que as mulheres gostosas não sejam inteligentes. Claro que existem algumas. Mas a maioria é superficial, mais traseiral, digamos. Arnaldo Jabor desenhou uma discussão exatamente sobre isso no seu livro “Amor é Prosa. Sexo é Poesia”, mas, do ponto de vista delas mesmas que possuem dupla personalidade, é a bunda e ela ou ela e a bunda, nunca uma coisa só. (Agora, quando passar na rua e avistar uma mulher com uma daquelas, vou dizer pra quem estiver do lado: olha aquela esquizofrênica!) Mas continuando o raciocínio sobre o texto do Jabor, digo que é exatamente isso, as mulheres não existem sem a bunda. O contrário, sim, mas daí não são mulheres, sexualmente dizendo. São as Madres Teresa de Calcutá e muitas outras de quem não me lembro agora (preciso parar de olhar só para as bundas). São mulheres que tinham o resto, que são mais do que uma trazeira avantajada com um resto. Essas sim são mulheres de verdade Porque o resto é só resto. Pelo menos pra mim.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Desarmonia

No peito

Corações embriagados.

Na cabeça

A certeza do inevitável


É agora

Para mim indiferença

Mais tarde percebi a sentença


E agora


Uma parte de mim diz para correr

Outra parte de mim diz para ficar

Quanto mais eu corro, mais eu fico

(Desarmonia)


O tempo passa acelerado

O coração segue o compasso

Tudo está certo. Tudo está errado

Quanto mais eu corro, mais eu fico


Eles dizem: o que é seu está guardado

Eu digo: se é meu por que estou separado?


Uma parte de mim diz para correr

Outra parte de mim diz para ficar

Quanto mais eu corro, mais eu fico

(Desarmonia)


Eu escuto: Não se preocupe, o que é seu está guardado. E o que tiver que ser teu será dado. Nem mais cedo nem mais tarde.


Agora

Não consigo compreender

Quanto mais eu corro mais eu me perco

Um amor tão perfeito

Vive nesse desconcerto.


Uma parte de mim diz para correr

Outra parte de mim diz para ficar

Quanto mais eu corro, mais eu fico

(Desarmonia)


Agora eu estou parado e continuo perdido!


Eu fecho meus olhos e deixo a vida mostrar a lição.

Uma eternidade inteira.

Fique em silêncio. Continue assim, do jeitinho que você está agora. Em silêncio mental. Sem os “ses” que vivem dentro da sua cabeça. Sem os “quando eu” que você vive dizendo ou que vivem dizendo para você. Esqueça tudo o que você tem que fazer. Seus planos, suas dívidas, suas metas, seus objetivos. Jogue tudo isso fora e apenas fique quietinha aí com você. Só com você. Sozinha. Mais nada. Não existem problemas, não existem cobranças, não existe prazo, não existem contas. Nada existe. Apenas você dentro de você mesma. Tente sentir o seu corpo. Seus pés, pernas, braços, sua respiração, seus olhos correndo por essas linhas. Perceba você. Preste atenção no seu coração batendo aí dentro do seu peito. Enquanto isso, perceba as coisas acontecendo ao seu redor. Sem olhar para elas. Não tire os olhos daqui. Fique aqui comigo. Não pense em nada. Só repare. Sinta. Continue assim, quietinha, na sua.Perceba, quando você se aquieta, que as coisas parecem perder o sentido. Na verdade, elas perdem os sentidos que você dá a elas. Porque elas simplesmente são o que são. Sem o sentido que você dá a elas.O sentido exagerado. Mistificado. Perceba que tudo isso aí que está acontecendo na sua vida faz parte de um plano.Portanto, procure passar por essas coisas em silêncio. Sem brigar com elas. Sem se debater. Porque é assim mesmo que vai ser. Que tem que ser. Hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Sempre. Caminhe em paz com as coisas. Deixe-as virem. Passarem por você. Sem mistificar, sem dar tanta importância a elas. Apenas pegando o que elas têm de melhor e deixando-as ir embora. Porque se veio até você é porque tinha que vir. Com endereço certo. Relaxe, respire, sorria paras as coisas. Você vai se sentir melhor, as coisas vão ficar melhores. Seu coração vai continuar batendo do mesmo jeito. As coisas vão passar do mesmo jeito.E você vai ficando de outro jeito. Cada vez melhor. Bem melhor. Afinal de contas, você tem uma eternidade inteira pela frente.

domingo, 5 de setembro de 2010

Tomara

Quando a gente fica muito tempo sem alguém por opção, a gente se acostuma com uma certa paz que existe quando se está sozinho. Que é importante pra gente conhecer um pouco mais sobre a gente. Mas quando se fica sozinho por medo, a gente também aprende muita coisa sobre a gente, mas aprende mais ainda sobre o medo. E ele é fogo. Vai queimando aquelas vontades que a gente tem de dividir um carinho, de olhar alguém mais profundamente nos olhos, de pegar na mão, de dizer coisas que vem lá de dentro da gente. Esse medo funciona como um algo que analisa o que o nosso coração solta despreocupado apenas por sentir, e mete o fogo do parecer bobo ou inadequado encima. O amor nunca é inadequado. Sentir uma vontade gigante de dividir um algo com alguém e não ter coragem de fazê-lo é que é. E quando a gente liga esse troço, a gente liga a mediocridade junto. E liga mais um monte de coisa boba. Como a falsa auto-suficiência. Um sentimento que faz a gente se achar completo. Até existem caras assim. Que se bastam. Mas são poucos, caras longe das nossas imperfeições e carências emocionais. Porque cá entre nós, é bom pra cacete sentir o encaixe da outra pessoa na gente. Que quando você abraça é como se estivesse se abraçando. Sentindo o fluxo de energia que você põe naquilo voltando igualzinho pra você. Perceber a lei da ação e reação no amor é bom demais. Aí assusta mesmo, ué. Lógico, vem o trocinho do medo e diz o seguinte: “Opa, opa, isso aí é bom demais meu camarada. Segura essa onda aí que você não vai dar conta. Gostou e quando ficar sem vai doer”. Pois é, a gente nem assimilou o efeito do carinho da outra pessoa e já vem a porra do medo avisando a gente da falta dele. Ou seja, é medíocre. É como as pessoas que não querem ganhar na sena pela possibilidade de torrar tudo e ficar sem nada. Olha que merda. Mas tomara que a gente encontre um alguém que tenha um estoque de amor tão grande que não admita um recipiente pequeno pra depositar. E tomara que esse alguém perceba que você quer viver um grande amor, sim, mas que ainda tem esse troço ligado aí dentro de você a tanto tempo que apenas se esqueceu de onde fica o botãozinho pra desligar. E que ela esteja disposta a enfiar a mão bem lá no fundo das suas melecas emocionais pra te ajudar a encontrar esse botão. Juntos. Tomara.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Playboy.

Sala de parto. Pai fumando de um lado pro outro enquanto sua donzela, princesa, tchutchuca, pitiquica está estrebuchando e dando tudo para dar a bendita luz. Senhor, é uma menina! A dona desmaiada na sala de parto e o coroa desmaiando na sala de espera. Semanas depois, no boteco com os amigos, ele afoga as mágoas: “O que será de mim, o que será da minha coleção da Playboy? Não agüento esperar um neto. E se tiver uma neta, então, caio duro na hora. Ele vai se afogando no boteco, nas fraldas mijadas de madrugada, nos choros sequenciais intermináveis. E o tempo vai passando. Sua mulher mutante volta às roupagens naturais acompanhada dos adjetivos coerentes ao seu passada tão esperado pelo marido. Sua cintura voltou ao normal, suas nádegas não parecem mais sacos de estopa ou massa de pizza. Ele voltou a chamá-la de princesa, donzela, tchutchuca, gostosa, delícia e por aí vai. Aquele monstrinho que dorme de dia e grita à noite, soltando detritos fedorentos por todos os lados, também se transforma. Mutantes. Agora corre pela casa com uma delicadeza indescritível. É uma fadinha. Uma menina com sensibilidade que deixam nosso querido papai desolado, inconformado, apaixonado, preocupado em pensar perdê-la um dia para alguém como ele. O que seria dele sem ela? Na sala, lendo o jornal, lembra dela entrando sem fazer barulho e, por entre suas pernas, sobe no sofá, deita em sua avantajada pança e diz com o rosto colado no seu estômago: “Papai, eu te amo”. Nesse instante, todos os planos frustrados de empinar pipas, jogar bola e presentear o filho com sua coleção completa da Playboy desde 1950 desaparecem da sua mente dando lugar apenas aquela frase. O tempo continua passando. Ela já não é mais aquela fadinha. Já está uma princesinha, com trejeitos de puberdade próxima. Ele dá uma olhada para sua donzela e vê um dragão. Cadê minha donzela? Se olha no espelho, empapado, barrigudo, e continua questionando. “Cadê também aquele príncipe que eu era?” Sua coroa vem por trás e te dá um beijo abraçando sua barriga. Ele retribui com um sorriso nos lábios, feliz da vida por ter duas mulheres maravilhosas ao seu lado. Afinal, nunca foi tão amado em toda a sua vida. Um dia, acorda e vê sua princesinha e percebe que também virou uma donzela, uma tchuchuca, uma delícia. De alguém? Espanta qualquer pensamento sobre tal assunto. E aquela nova donzela ainda o abraça e diz que o ama com a mesma delicadeza e carinho de vinte anos atrás. Ela ainda é o meu bebê, pensa ele já com os neurônios em extinção. Depois de um jogo de damas na praça resolve comprar palavras cruzadas numa banca próxima. Passando seus olhos fracos pelas revistas, vê algo familiar. Os mesmos olhos fracos se esforçam e um brilho realça a catarata. É a minha princesa. Ela está numa revista. Minha princesa numa revista. Seus olhos correm para o título, Playboy, e se fecham para sempre.

domingo, 1 de agosto de 2010

Me pega. (Alma Gêmea)

Pega-me, oh vida,
Pelo ponto mais fraco

Pelo canto mais drástico.

Joga-me, oh vida

Contra as paredes rochosas

Da discórdia sem folga.

Trága-me, oh vida,

A pureza indiscreta de uma alma incerta.

Bata-me, oh vida,

Na ferida da alma

Na essência da calma.

Livra-me, oh vida,

Do cume cinzento dos dias sem alento.

Abraça-me, oh vida,

Com desejos atentos desses vãos sentimentos.

Beija-me, oh vida,

Os lábios sedentos de outro lábio contento.

Possua-me, oh vida,

Do aroma celestial de um coração angelical.

Sufoca-me, oh vida,

De desejo carnal de um amor espiritual.

Honra-me, oh vida,

Do privilégio de tal,

Enaltecendo-me por igual.

Suplico-te, ó vida,
Em seu caminho encontrar

Uma alma como a minha para amar.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Me dá um abraço.

Gostaria de entender melhor as coisas. De um jeito melhor, sabe? Gostaria de entender o significado de cada dia, de cada “toque“ que a vida dá. Ah, se soubesse decifrar. Ou se, pelo menos, tivesse um pouco mais de percepção para isso. Mas até lá vou sentindo. Deixando que a vida me emocione em todos os seus sentidos. Até lá vou sentindo e fazendo os outros sentirem. Por algum motivo, já percebi que não passo mais pelas pessoas como passava antigamente. Bom, para elas eu simplesmente passo. Mas para mim, é diferente. É como se eu passasse e uma outra parte de mim, a melhor parte, abraçasse quem eu passei. Assim tenho uma sensação gostosa de como se me tornasse parte de tudo. Isso me faz bem. E assim não preciso sair abraçando todo mundo que encontro pela frente, evitando tomar alguns tabefes ou mesmo parar num manicômio. Mas nem sempre é tão simples assim. Tem gente que se incomoda com isso. Que se incomoda com a energia dos outros. Mesmo que nunca tenha tocado a pessoa, mas sinto que incomoda. Que não é bem vinda. Isso me entristece. Saber que a pessoa não gosta de ser abraçada, mesmo assim, invisivelmente. Paro de abraçar, e abraço mais forte outras pessoas. Mas quem dera poder abraçar todo mundo. Ou andar na rua e sentir milhões de abraços por onde passo. Imagina que delícia andar numa calçada movimentada e pessoas que a gente nunca viu na frente te dar um abraço. Seria realmente inspirador. E o mais fascinante de tudo isso é, antes do abraço, procurar os olhos dessa pessoa e olhar bem fundo como se estivesse dizendo um oi. Difícil é encontrar esses olhos. A maioria das pessoas anda olhando para baixo. Como se procurasse alguma coisa. Prefiro andar olhando para cima sem procurar nada. Tomo alguns tropeções a mais, mas prefiro assim. Prefiro até sentir agora ao invés de entender. Um dia irei entender. Por enquanto, vou sentindo. E abraçando. E olhando para cima. E tropeçando. Mas abraçando. Por enquanto. Como estou fazendo com você agora.

Ao som de http://www.myspace.com/olafurarnalds

terça-feira, 27 de julho de 2010

Então Fuma.

Cigarro. Ô droguinha miserável e repugnante, não? Não tem coisa pior que o cigarro. O problema é do cigarro, não de quem fuma o cigarro. Quem fuma o bendito são vítimas dele. Sofredores e súditos desse terrível hábito. Vai fazer o quê? Se matar? Pra quê? Já tá se matando mesmo. E o pior é que sabe disso e finge que não sabe. Entre uma baforada e outra ignora a real possibilidade de estar desenvolvendo um câncer ou qualquer outra coisa que o valha. O mais engraçado é que a pessoa dominada por ela acha que é o senhor dos anés. Fica soltando aneizinhos de fumaça por todos os lados, em todo o lugar, e o que é pior, na cara dos outros. Se achando. Aí chega alguém e diz: Você não tem respeito, não? Seu fedorento! Na maioria das vezes, nós os fumantes, ouvimos isso com os olhos, as pessoas nem chegam a dizer e a gente já escuta.
Sarcasticamente e um tando convencido, respondi certa vez, quando ainda fumava: Respeito? Quem fuma não respeita nem a si mesmo por fumar, quem diria aos outros. Rá-rá. Profundo não? Essa resposta bateu mais forte em mim do que na pessoa a quem respondi. A única coisa que bateu nela foi o bafo, mais nada. Mas em mim bateu tão fundo que até tossi.

Tudo bem, tudo bem. Nada que um susto não resolva, Deus me livre. Bati na madeira três vezes isolando qualquer possibilidade de algo desagradável acontecer. Porque de desagradável, basta o cigarro, né?
Mas cá entre nós. Existe uma droga muito pior que a do cigarro e que todo mundo usa e nem se quer sabe ou admite que usa: a fofoca. Ou as más línguas ou chame do que você quiser, mas que você é um usuário em potencial, isso é. Basta uma mesinha e duas pessoas e pronto. Entre um assunto desinteressante e outro, um dos dois consegue falar mal de alguém. Muitas vezes até disputam inconscientemente quem vai começar primeiro . As vezes demora um pouco para que o melhor assunto - a fofoca - entre em pauta. Do contrário já se nota os primeiros sinais de abstinência. O sujeito começa a se mexer na cadeira, a suar, a balançar as pernas, toma um gole do chopp e olha para um lado, para o outro, chega até a ignorar a morena da mesa ao lado lançando olhares para ele. Tão grande seu vício. Aí ele alcança o extremo da falta da droga e, quase num tom gritado diz: Puta que pariu!!! Que bosta de chopp! Será que não tem nenhum imbecil de um garçom nessa budéga? Fala sério Arnaldo. Parece aquela velha megera do escritório… Pronto, conseguiu, é como se a droga tivesse tomado conta de todo o seu corpo. Ele já se sente mais relaxado. O chopp já está uma delícia e até dá uma gorjetinha para o graçom e o chama de “meu camarada”. Seu amigo, ou quem estiver na mesa já instintivamente, para o que está fazendo e vira-se para o traficante, que distribui a droga e todos começam a consumi-la. Todos na mesa estão viajando. Muito louca a deliciosa droga das más línguas, ou da fofoca, ou do que você quiser chamar.
Todo mundo já usou esta droga ou pelo menos experimentou. Eu mesmo já usei. Vira e mexe me pego dando uns tapinhas. Mas quando me dou conta já estou completamente envolvido pelo veneno.
Mas se você é usuário e pretende largar esse vício ou simplismente fazer uma espécie de desintoxicação temporária, existe uma única saída:

1)
Dirija-se ao seu chefe e, preste muita atenção nos seus pensamento, normalmente eles vão estar liberando a droga com idéias do tipo: “Não acredito que vou ter que ver logo cedo a cara desse imbecil do meu chefe”. Mas fique firme e, no caminho pense em coisas leves como a minisaia da estagiária, por exemplo. Chegando na sala do chefe, bata delicadamente três vezes na porta e com um largo sorriso, agradeça o tempo de trabalho e peça umas férias.

2)
Faça uma mala bem grande, coloque no carro, escreva uma carta para os familiares dizendo que os ama muito e que ficará fora durante uns anos. Não esqueça das amantes.

3)
Pare na primeira banca de jornal, compre um “Guia Montanhas Rochosas do Himalaia” ou Atalaia, sei lá, e siga em frente sem olhar para trás. Sem pensar em nada. Uma boa dica é fazer durante toda a viagem o mantra do indiozinho. Anote aí: “Um, dois, três indiozinhos. Quatro, cinco, seis indiozinhos. Sete, oito, nove indiozinhos. Todos no mesmo bote”. Sua cabeça vai querer encontrar alguma maneira de culpar ou falar mal de um dos indiozinhos por ter virado o bote ou coisa parecida. Mas não dê ouvidos. Se isso acontecer cante a dos “Sete Anões”, que não me lembro agora.

4)
Chegando no pico da montanha mais alta que você encontrar, sua massa cinzenta vai virar uma pasta e depois uma rocha acinzentada. Fique aí o tempo que for necessário, até o momento em que seu corpo se encontrar totalmente adormecido pelo frio. Após este momento, seu cérebro já vai estar congelado e você vai entrar numa espécie de transe.

5)
Pronto, você está curado para o resto da vida.

Nunca mais vai falar mal de ninguém. Não que não venham a falar mal de você. Até porque, a frequência de pessoas falando mal de você vai dimuniundo de acordo com o tempo de sua ausência. Em média, dura dois anos e meio ou mais até as pessoas esquecerem o inútil que você foi. Ou que pelo menos elas achavam que você era. Abro um parênteses: no caso dos casados, a frequência das pessoas falando mal de você, no caso sua mulher, pode durar a vida inteira ou até outras. Fecho o parênteses.


Conclusão: é incalculavelmente mais fácil largar de fumar do que deixar de falar mal dos outros.
Eu? Parei de fumar.

domingo, 25 de julho de 2010

Eu também.

Bem longe daqui, nos confins da grande metrópole, num barracão (que se apagássemos as luzes diriam que é abandonado), uma luz. Uma mulher com jeito de menina passa por mim tão rápido, mas que assim mesmo o tempo parecia passar em câmera lenta. Seus olhos brilhantes, seu sorriso maroto... o que aquele ser fazia num lugar como esse? Passei o resto da metade da noite entre batuques e olhares de várias mulheres que não os de mesmo brilho, nem sorriso. Onde estava? Continuei procurando, não mais com tanto afinco, mas meus olhos ligeiros mesmo sobre o efeito do álcool, procurava incessantemente. Finalmente eles acharam. Com uma "coragem" e determinação fui em direção daquela mulher como nunca havia tido na vida. Até porque, a timidez (ou será insegurança?) me impedem de tal iniciativa. Mas meus olhos tinham que ver o brilho dos olhos dela de novo. E bem de perto. Olhei, falei, sem saber o que falar, o encantamento era maior do que a razão. Meus olhos se fecharam e nossos lábios se tocaram com força e foi como se, no Saara, encontrasse uma garrafa d’água e bebesse sem derramar uma gota. Matei a sede de um carinho que quebrava qualquer barreira de tempo e de espaço. Como se o agora não existisse ou que o agora já tivesse acontecido. Não tem como explicar algo inexplicável. A energia ia além do beijo. Como se houvesse um acoplamento áurico perfeito entre a gente. E nem o ambiente, nem o álcool ou qualquer outra coisa parecia incomodar. Era puro. Era recíproco. Mas a vida nos dá alguns presentes e ao mesmo tempo ensina que ela é cheia de presentes, mas que, sua essência é a inconstância, a eterna transformação, mudança, passagem. Nos despedimos com o mesmo brilho nos olhos, só que intensificado. Sem palavras, que não conseguíamos descrever o ocorrido. Mas a dela selou o presente que qualquer homem como eu, descrente de amores puros, volta a crer. Ela olhou e disse: “eu também”.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Chavezinha.

A vida é engraçada. Faz tudo direitinho para te pegar de jeito. Para colocar você naquelas situações que você não quer estar. Não adianta. Quando você vê, pronto, a situação tá ali, bem na sua fuça. E com ela vem a emoção. Vem o sentimento. Que explode no peito balançando você de um lado para o outro. Te tirando do centro, mesmo. É aí que entra tudo o que você praticou e aprendeu sobre auto-conhecimento. Porque não adianta nada a vida te colocar numa situação se você nem mesmo percebe a situação. Se nem mesmo percebe a lição. Ali na sua frente para você olhar. Respeitar, encarar, sentir tudinho. Como se você bebesse uma garrafa de água fresquinha num dia quente. Até a última gota. Mas para você perceber, tem que estar presente. Tem que estar ligeiro, ligado. E a gente só afina esse “estar ligado” com muito estudo e prática. Meditação. Demorei muito para perceber o benefício real dessa técnica milenar. Ela te traz uma lucidez muito clara. E não é sobre essas coisas esotéricas que vem junto no pacote, tando das escolas quanto dos pré-conceitos das pessoas sobre o assunto. E sem falar nas viajadas na maionese que a maioria faz sobre o assunto. Nada disso. Mas a real é que ela te dá um milésimo de segundo entre uma escolha e outra. É mais ou menos assim ó: a vida chega e te coloca numa situação. Essa situação causa um sentimento em você. Esse sentimento te leva a uma ação. E é aqui que o troço pega. Porque, na maioria das vezes, essa ação, esse impulso que a gente tem, é de onde sai a maioria das nossas cagadas. Desculpem o palavriado, mas é isso mesmo. São nesses impulsos imediatos que fazemos as escolhas erradas. As escolhas que a gente vem fazendo a muito tempo. Mas só que não percebemos. Aí toca vir fulana na sua orelha e diz: “Porque isso sempre acontece comigo? Sou azarada”. Ou, “Os homens são todos iguais, mesmo.” E mais um monte de babaquices que você já sabe e também fala. E eu também, viu? Mas tudo isso é o resultado desses impulsos que a gente tem quando uma situação aparece na nossa frente. E esses impulsos são padrões que ficam enraizados na gente. E se repetem sempre e sempre. Mas como somos espertalhões, achamos que a culpa é sempre de quem? Do outro, lógico. Que está lá fora e que não temos nada a ver com isso. Tsc, tsc, tsc... sinto muito dizer, filhote, mas és tu o culpado das coisas se repetirem na sua vida. São aquelas escolhas feitas por impulso, quase inconsciente, que você teima em fazer a sua vida inteira. E eu também, e todo mundo. Fica tranquilo que você não tá sozinho, não. Mas onde quero chegar, pelo menos na minha percepção, é que a meditação criou em mim - e por favor, não me pergunte como – um “espaço” entre a emoção que a situação traz e o impulso da reação, o padrão. E só percebi isso quando, no momento que já havia feito a escolha por impulso, foi como se eu estivesse fora de mim, olhando a escolha sendo feita e a ação sendo executada. Deu para entender? Calma, vou tentar explicar melhor. Você viu o filme Prince of Persia? Então, sabe o momento em que ele aciona o punhal e volta alguns segundos no tempo e observa a situação rolando com ele? Pois é. É bem isso que acontece. É como se você pudesse se observar tomando uma decisão. Ou como se pudesse perceber o impulso chegando antes de você dar vazão a ele. E isso é muito importante. Porque é esse o verdadeiro significado do auto-conhecimento. É essa percepção que faz você se conhecer. Saber como funciona esse mecanismo que a gente tem dentro da gente e que está ligado no automático. E o grande segredo é sair do automatismo. Ficar mais lúcido das escolhas e atitudes que a gente toma na vida. Se é difícil? Pra burro. É muito difícil, porque exige disciplina, prática, muito estudo e dedicação. Porque não é só chegar e mudar a chavezinha do “auotmático” para o “manual”. Primeiro você tem que descobrir onde está a chavezinha. E aí vai a dica: Está aí dentro de você.